Depois de 8 anos à frente da banda Anjos de Resgate, o cantor, compositor e produtor musical Dalvimar Gallo está lançado o CD Rezando com um Anjo, primeiro trabalho solo da carreira.
Em entrevista, o músico falou sobre o novo projeto, que tem ares celebrativos. Prestes a completar quatro décadas de vida, Dalvimar explicou que o número 40 na Bíblia tem um significado de recomeço, de final de um ciclo e preparação para o início de um novo tempo. O artista também falou sobre a carreira, a família e a história do Anjos de Resgate.
– Como surgiu essa idéia de gravar um CD solo?
Dalvimar Gallo – A idéia surgiu de uma conversa de amigo, entre eu e o Marcos Pavan, em que pensei em dar esse trabalho como um presente para as pessoas. Um presente que fosse diferente do Anjos de Resgate. Um presente com o qual também eu poderia estar resgatando algumas canções que são muito boas, na minha opinião, e que acabaram não sendo muito trabalhadas no repertório dos shows da banda.
- Com esse trabalho solo você assume uma missão paralela à do Anjos de Resgate? Fala um pouco sobre esse novo tempo.
Dalvimar Gallo – Desde o início, o Anjos de Resgate tem sido maravilhoso para mim. É fantástico fazer parte dessa missão de amor. Quantos não foram libertados, curados e alimentados pela palavra? Saber que faço parte de uma coisa grandiosa, que leva as pessoas para o céu não tem preço.
O Anjos de Resgate é uma missão. E agora, com esse trabalho solo, sinto-me enviado pelo Anjos para uma outra missão, porque Deus sempre multiplica os talentos. Novos frutos vão surgir e eu fico grato a Deus por me fazer um novo chamado, para que as pessoas possam usufruir de mim de outra forma.
- Por que o título Rezando com um Anjo?
Dalvimar Gallo - Isso não quer dizer que eu seja o anjo aqui. Mas meu desejo é que as pessoas retomem o hábito de rezar com seu anjo. Que não esqueçam de que ele existe e está ao seu lado 24 horas por dia. Espero que o CD remeta muitos a esse hábito novamente. Se rezar comigo, estaremos rezando com um anjo. Se rezar sozinho, também. E assim estaremos rezando juntos com um anjo.
– Como foi a escolha do repertório?
Dalvimar Gallo – Sentei com outro grande amigo meu, o Netinho, da banda Dr. Ignis, e juntos selecionamos 13 canções. São 8 músicas gravadas pelo Anjos de Resgate, que são bem conhecidas do público, mas foram pouco trabalhadas nos shows. Também escolhemos 3 composições minhas que foram sucesso na interpretação de outros artistas: A Chave do Coração (gravada por Adriana), Fã de São José (sucesso na voz de Laércio Oliveira) e Sacramento da Comunhão (que divido a autoria com o Diácono Nelsinho Corrêa e Ana Lúcia). Completando o CD, 2 canções inéditas: Misericórdia e Espírito Santo Defensor.
- Fala um pouco sobre as músicas inéditas do CD.
Dalvimar Gallo - Na música Misericórdia, é como se eu estivesse de um lado da ponte, com minhas sujeiras, meus restos, meus pecados mais graves. Então eu clamo a misericórdia e Deus vem e me ajuda a atravessar essa ponte, deixando para trás toda a sujeirada. Fico até olhando. E quando Deus percebe meu olhar para trás ao acabar de atravessar, ele, com apenas um dedo, destrói aquela ponte para que eu não consiga voltar mais atrás. E me faz seguir em frente.
Na música Santo Espírito Defensor, Deus preenche todo o vazio que ficou em mim ao atravessar aquela ponte. E faz mais: ele vem me ensinar que quando falamos do Deus Amor, é ao Espírito Santo que estamos nos referindo, pois Deus Pai é o amante, Deus Filho é o amado e Deus Espírito Santo é o amor com o qual o Pai ama o Filho e a nós também.
- Qual a importância de um trabalho solo nesse momento da sua vida?
Dalvimar Gallo – Bom, este ano estou fazendo 40 anos. Para mim é uma data muito especial e não quero que passe em branco. Por isso resolvi começar vivendo meus 40 anos dando um presente especial para o público.
Na Bíblia, o número 40 tem um significado especial: as chuvas do dilúvio duraram 40 dias e 40 noites; Moisés esteve por 40 anos no Egito, 40 anos em Midiã, tinha 40 anos quando foi chamado por Deus, ficou 40 dias no Monte Sinai até receber as tábuas da Lei e conduziu o povo de Israel pelo deserto durante 40 anos; Jesus jejuou 40 dias no deserto, antes de iniciar sua vida pública e esteve com os discípulos por 40 dias após a ressurreição.
Enfim, nos meus 40 anos, quero que Deus esteja presente e quero que isso reflita nas minhas canções e na vida das pessoas. Acho que é isso.
- Chegar aos 40 é um fato bem emblemático. Especialmente para você, que celebra 40 anos de um milagre, não é isso? Conta para a gente essa história.
Dalvimar Gallo – É verdade, eu sou fruto de um milagre. Minha mãe tinha o que os médicos chamam de um útero infantil e que também era cheio de miomas, por isso não podia engravidar. Ela e meu pai rezaram muito e fizeram promessa a Nossa Senhora Aparecida. Até que um médico conhecido havia ido à Alemanha e trouxe de lá três injeções para tentar realizar um tratamento. Bastou a primeira injeção e ela já engravidou. Por isso, fui consagrado a Nossa Senhora quando ainda estava no ventre da minha mãe.
Nasci de 8 meses e passei por cirurgias para corrigir a garganta, o sistema auditivo e as vias nasais, que ainda não estavam totalmente formados. Quando eu tinha mais ou menos uns 5 anos de idade, ela precisou tirar o útero e os médicos não conseguiam entender como ela havia conseguido gerar uma criança até o oitavo mês e não acreditavam como eu havia crescido sem seqüelas.
- Interessante que as cirurgias que você precisou fazer quando nasceu foram exatamente naquilo que você utiliza bastante no seu trabalho na música: a audição, a voz e a respiração. Como foi esse início da tua vocação musical?
Dalvimar Gallo – Quando ainda era bem pequeno, eu gostava de ouvir o meu avô tocar acordeom. A gente ia para a roça e ficava ouvindo ele tocar. Depois de tanto trabalho, a diversão era aquilo.
Quando eu tinha uns 9 anos, vi meu primo tentando aprender violão. Só de ver ele tentar, tinha certeza de que eu conseguia fazer aquilo. Um dia eu peguei o violão escondido e consegui. Quando eu percebi que tinha jeito para a coisa, pedi um violão ao meu pai, que comprou um violãozinho simples, Tonante.
Pouco tempo depois, aprendi as músicas da Igreja e comecei a tocar. Minha estréia foi numa missa de Natal. O grupo que ia tocar não pôde ir e meus primos, que participavam das pastorais, perguntaram se eu tinha condição de tocar. Respondi que sim e não parei mais.
- Você também tem uma história de sucesso na música secular. Como você partiu para essa carreira?
Dalvimar Gallo – Quando eu tinha 12 anos, fui convidado para tocar numa banda de baile e comecei, já muito cedo, a trabalhar e colocar comida dentro de casa com a música. Com isso, acabei me afastando um pouco da Igreja, pois nos finais de semana trabalhava na banda. Mas mesmo assim continuei tocando nas missas durante a semana.
Depois de muitos anos tocando, acabei conhecendo muita gente. Trabalhei com grandes produtores, grandes artistas da MPB, aprendi muito. Até que, nos anos 90, formamos a banda Dallas Company e lançamos o nosso primeiro disco. Foi um grande sucesso. Foi um tempo em que provei do sucesso, do dinheiro e da fama.
- Diante da carreira de sucesso que você estava trilhando, como foi a decisão de largar tudo para ser um missionário?
Dalvimar Gallo – Bom, a última faixa do CD do Dallas era uma música cristã. Por causa disso, o disco acabou chegando nas mãos do Dunga. Como estava para acontecer o primeiro Rodeio com Cristo, na Canção Nova, alguém passou o meu telefone e ele começou a me ligar, dizendo para eu largar tudo e ir para Cachoeira Paulista viver só de música católica. Eu achei um absurdo o que ele estava falando e bati o telefone na cara dele (risos).
Só que aquilo foi uma sementinha, que ficou incomodando, me levando a perceber as coisas que precisavam de mudança na minha vida. Passei o ano de 98 quase todo em crise. Até que no final do ano, quando a banda estava no auge do sucesso, prestes a lançar o segundo disco, com a música, eu e minha esposa recebemos um chamado de Deus.
Eu e a Lela vínhamos rezando por tudo aquilo, um dia veio a passagem de Colossenses 4,17, que diz: “Veja bem o ministério que recebeste e usa-o todo em nome do Senhor”. Ficamos muito felizes, demos pulos de alegria pela casa e a partir daquele dia largamos tudo.
Ninguém da banda entendeu nada. Doei a parte financeira e de direitos autorais do grupo e também abri mão da propriedade do nome da banda. Ali se concretizou uma palavra do apóstolo Paulo: “Tenho tudo em conta de esterco” (Fil 3,8b). Todo o sucesso e o aporte financeiro que alcancei com a banda não valiam mais nada diante do chamado de Deus.
- Essa decisão radical gerou o ministério Anjos de Resgate. Como foi esse início?
Dalvimar Gallo - Em 1996, eu e mais algumas pessoas começamos um trabalho de recuperação de dependentes químicos. Nessa época, cuidávamos de 40 pessoas. A obra estava crescendo, mas não tinha um nome.
Certo dia, um dos recuperandos pediu para ter uma reunião com o conselho do grupo. Ficamos preocupados, achando que fosse algum problema. Na reunião, ele disse: “em nome de todos os recuperandos, venho aqui dizer que vocês são anjos na nossa vida, nos devolveram à sociedade, à vida, às nossas famílias. Vocês são anjos de resgate em nossas vidas”. Daí surgiu o nome do grupo.
Em 1999, eu e Marcos Pavan tivemos a idéia de fazer um CD para ajudar financeiramente a obra. Quando o disco ficou pronto, Adriana estava em Colatina. Alguém a levou na minha casa e nos apresentou. Ouvimos as músicas e ela pediu para mostrar o CD para Eraldo Mattos, da gravadora Codimuc. Depois de ouvir o disco, Eraldo ligou na minha casa falou a mim e ao Marcos Pavan sobre um novo tempo de Deus. Isso aconteceu em janeiro. Em fevereiro, eu já estava morando em Cachoeira Paulista (SP). A partir daí começou o ministério de música Anjos de Resgate.
– Deixa uma mensagem para os fãs da banda Anjos de Resgate, que acompanham o trabalho de vocês há todos esses anos e que certamente vão apreciar essa nova missão.
Dalvimar Gallo – A música é um dos instrumentos mais eficazes para a evangelização. Quando ela é bem executada, entra no coração das pessoas e faz morada ali. Quando você ouvir esse CD, tenha certeza de que ele estará levando Deus até você. Baixe a guarda do seu coração e deixe a música levar o Senhor até você e ali fazer morada. Deus quer morar em você.
Mas o primeiro passo, de abrir o coração, é seu. Dê esse passo. E ajude outras pessoas a subirem esse degrau. Mas comece por você. Sempre você primeiro, depois o outro. E mais outro, e mais outro. Quando não podemos mudar o mundo, mudamos nós primeiro. E aos poucos mudaremos o mundo.